GIROS DA INTERPRETAÇÃO – O enigma na literatura e na psicanálise

Joyce, o intragável

Maria Teresa Guimarães de Lemos

O tema deste encontro, que abre mais uma vez a questão dos modos contingentes, necessários, possíveis ou impossíveis dos laços entre psicanálise e arte, encorajou-me a desenvolver um comentário apresentado em uma reunião de trabalho do Outrarte, cujo ponto de partida havia sido a leitura de Lituraterre (Lacan 1971[2003]).

            Naquele momento, assim como agora, a ideia não era fazer um comentário sobre Lituraterre, nem tampouco sobre Joyce, mas aproveitar o que dessa leitura pode iluminar a função que Joyce teve para Lacan. Alguns psicanalistas, como Harari (Harari 2008), atribuem a Joyce um lugar de “começador”¹, iniciador de uma nova operação com a linguagem, não hesitando em falar em uma psicanálise “pós-joyceana”. Por outro lado, onde me incluo, a ideia de que Joyce realiza para Lacan uma função atráves

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  1.  “(…) Joyce como começador, e Lacan depois dele, respondem por meio do convite à escritura. Escritura a ser realizada respectivamente, pelo leitor e pelo psicanalista. Convite a uma reescritura, em puridade, onde  a repetição gera uma diferença inexorável, como depois teremos condição de verificar, mas que também se afasta de modo notório, de outro proceder psicanalítico muito popular e bem visto: se trata do “tomar os significantes ao pé da letra”, operação certeira e inapelavelmente criticada por Lacan em L’insu. Em resumo, o aperfeiçoamento da linguagem, iniciado por Joyce, radica em “saber jogar com a escritura” e não em ler de uma infinidade de maneiras” (Harari 2008, p.32).

da qual é o próprio avanço da experiência analítica que está em questão, não privilegia a dimensão de originalidade da criação do artista, cujo ato abriria para a psicanálise caminhos ainda insuspeitados, mas interroga mais uma vez de que modo e em que momentos a psicanálise recorre à Obra para avançar no real da sua própria experiência. Desta posição, também podemos afirmar que ainda que a distância entre psicanálise e arte fosse mínima (se ambas “fazem” com o saber inconsciente²) é também sempre irredutível, já que o analista – no exercício da sua função e na elaboração de sua experiência – não está livre para tratar a obra como fariam o artista o crítico literário ou o leitor comum, mas é antes determinado pelos efeitos que o dispositivo analítico impõe a seus operadores.

o melhor que se pode esperar de uma psicanálise em seu término”

Minha hipótese é de que no pano de fundo das elaborações de Lacan com Joyce (que vão do litoral, em Lituraterre, ao sinthome, no Seminário 23) estão a questão do passe e aquilo que o próprio Lacan nomeou como seu fracasso. Quando me refiro a esta questão, não penso apenas nos desdobramentos da experiência do dispositivo na Escola Freudiana de Paris, mas principalmente no que constitui a motivação maior de Lacan para a invenção do dispositivo: a impossibilidade que se impõe quanto ao saber relativo ao final de análise.

            Um dos efeitos que o dispositivo analítico determina em seus operadores não seria o fato de que, no momento mesmo em que cai como objeto, o analista nada pode saber desta passagem, devido ao seu próprio consentimento radical nesta queda, sem o qual ele faria barreira ao ato? Do lado do analisante, o cálculo pelo qual decide in loco, in ato, sua saída, apoiando-se unicamente no movimento de seu próprio Dizer, não revelará sua pertinência³ somente depois, quando ele já se encontra na rua, do lado de fora? Ainda é preciso, a meu ver, agregar aí a importância dos desdobramentos imprevisíveis que algumas questões do sujeito acabam produzindo nesse momento posterior, entendendo que as respostas que

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  1.  Um tratamento interessante dessa questão se encontra no livro de Serge André, Le symptôme et la creation, 2010.
  2. Ou seria melhor dizer impertinência?

o sujeito produz então são provavelmente as mais reveladoras do que se poderia esperar de uma análise. Elas se inscreverão, entretanto, em outros lugares e são facilmente desconhecidas pela comunidade analítica.

            Os caminhos pelos quais Lacan, desde sua entrada na psicanálise, tentou formular e responder ao problema do final de análise mereciam por si só um desenvolvimento que não pode ser feito aqui, mas vale lembrar a insistência com que este tema pontuou todas as fases do seu ensino: trata-se sempre para ele de uma questão central, diferentemente de Freud, que n

ao se ocupou disso com a mesma urgência e sistematicidade. Lacan recusava a cantilena segundo a qual Freud teria sido o descobridor do inconsciente; para ele era preciso reconhecer que Freud inventou um dispositivo totalmente inédito, que – assim como a Ciência moderna – tinha o poder de intervir sobre o real. A tentativa de inventar outro dispositivo, diferente do analítico, mas também fundado sobre o certo tipo de obstáculo aos efeitos de intersubjetividade da fala, foi uma das maneiras pela qual Lacan tentou produzir um saber sobre essa passagem. Não sabemos se os resultados da experiência do passe na sua Escola foram considerados por ele um fracasso no sentido de uma nulidade, ou antes, de uma insuficiência de outros avanços como os recursos à lógica e à topología, que poderíamos talvez chamar de dispositivos teóricos, mas o fato é que a questão prosseguiu e Lacan nunca descansou a este respeito.

            O modo pelo qual Joyce aparece ligado a questão é bem evidente desde Lituraterre, onde Lacan afirma de início que Joyce foi direto ao que se pode esperar de uma análise em seu fim.

            No jogo que evocamos, ele não ganharia nada, indo direto ao melhor que se pode esperar de uma análise em seu término. Ao fazer da letra liteiralixo [litiére], será que é de são Tomás que lhe retornar, como testemunha sua obra do começo ao fim? (Lacan, op. cit., p.15)

            Será que a expressão “ir direto à” seria, nesse, caso a indicação de um procedimento que se estende a tal e qual à prática analítica, onde essa abordagem direta, na qual a escrita faria barreira aos efeitos de significação próprios ao significante, inauguraria uma nova clínica? Estaria Lacan sugerindo que Joyce seria privilegiado em relação ao neurótico em análise, cujo caminho indireto, esse infinito ir e vir da leitura das formações do inconsciente e de sua repetição na transferência, poderia ser economizado?

Antes de nos precipitarmos nessa ideia, certamente alinhada com o propósito de falar de uma outra ou nova clínica no final do ensino de Lacan, aquela na qual o real reina em sua primazia sobre o simbólico, seria mais interessante tentar saber por que, para Lacan, o fazer da “letra liteiralixo”, fazer dela o que não serve para nada, é o que de melhor se pode esperar.

apoteose do real?

            Antes de passar para os achados de Lituraterre, abro aqui um parêntese para comentar o trabalho mencionado de R. Harari sobre Joyce, pelo que ele oferece como contraponto nessa discussão. Nele podemos identificar, a meu ver, o ponto de resistência emblemático do modo como a questão tem sido tratada quando, não se reconhecendo o impossível trânsito direto entre psicanálise e arte e as determinações próprias ao psicanalista nesta relação, os resultados não são capazes de iluminar os impasses próprios da experiência analítica.

            Em “Cómo se llama Jmaes Joyce? A partir de ‘El sinthoma’ de Lacan” (1996) e depois em “Psicanálise pós-joyceana, pontuações” (2008), uma análise. Sua resposta, da qual me sirvo aqui como contraponto, é uma resposta positiva, no sentido matemático do termo. Há um ganho, algo a mais. A natureza desse a mais é o que tentaremos mostrar a seguir com alguns excertos do seu texto.

             O autor propõe o termo Realinguagem para se referir a operação iniciada por Joyce, que se funda segundo ele sobre a materialidade da letra e não a infinidade dos deslizamentos inerentes à “legalidade” própria do significante. Destacando o fato de que Joyce trafica com as palavras mais além das línguas, impossibilitando a reciprocidade escrita-leitura, atribui a este procedimento a abertura para uma atomística que permite dizer não à estrutura:

            Atomística que é a do hálito, do som, da fonetização, do fonema, da sílaba inclusive e que não convalida nenhuma totalidade do tipo estrutural. Para ser mais claro: é dizer não à Gestalt, sem lugar a dúvidas, mas também, desta específica pertinência característica da Rea Linguagem, é dizer não à estrutura, seja como for definida. (Harari 2008, p.35, grifo meu)

            Deduz-se deste trecho que o autor toma como equivalente a estrutura da língua (ou mesmo a linguagem), descrita por ele como da ordem da linearidade saussureana.⁴ Que Lacan tivesse sustentado – até o momento do encontro com Joyce – uma tal concepção de linguagem parece-me fácil de contradizer, no entanto, o mais importante, para a discussão que nos interessa aqui, é o fato de que nessa concepção a letra na sua materialidade, a letra enquanto real, é pensada como materialidade fônica/sônica (sic). É o que se pode entender de afirmações como:

            Pois bem: ao levantamento do véu, ao combate contra o esconderijo onde se aninha a cara oculta, tapada, secreta, mascarada, sexualizada, enfim do vocábulo, Joyce destina seu notável trabalho com o pun. O que torna inteligível, então, os alcances precisos da tão redefinidora pontuação de Lacan concernente ao “desabono do inconsciente” característico da escritura do autor de Finnegans… Desabono que, de acordo com esta intelecção do pun, resulta referido com precisão por este esclarecimento de Feinsilber: “(…) o Real forclui o sentido mas não o som (…)”.  Do qual se deduz que, ao levantar o recalque recaído em uma palavra – via pun – damos livre curso ao não forcluível: o sônico. (ibidem, p.46, grifo meu).

(…) a ênfase no sônico nos conduz a privilegiar o ritmo, a eurritmia, a rima, a assonância, a consonância, a cadência, o compasso, enfim, a musicalidade (da qual não está isenta, de modo algum, o paronímico como parente carnal da lalação iterativa). A língua assim concebida, portanto, é – antes que um sistema formal e abstrato – uma língua lúdica, paródica, aberta, inventiva, porquanto permanece des-sujeitada do corpete da estrutura (ibidem, p.54, grifo meu)

            Para fazer dessa língua a ocasião de uma nova ética, diferente daquela que se teria interpretado a partir do modo de presença de Antígona no Seminário 7: a ética da psicanálise, Harari retoma a expressão cunhada joyceanamente por Lacan, a faunétique,⁵, para afirmar uma ética cifrada no

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  1. Falar da linearidade em Saussure é por si mesmo estranho, se o que caracteriza o gesto pelo qual fundou a linguística como ciência é justamente o estabelecimento da língua enquanto dimensão sincrônica.
  2. Il suffit de l’écrire phonétiquement: ça, le faunétique (faun…), à sa mesure: I’eaubscène. Écrivez ça eaub…pour rappeler que le beau n’est pas autre chose”. Traduzido por Harari: “É suficiente escrevê-lo foneticamente: isso o faunético (faun…), em sua medida: o águaobscena/obsceno. Escrevam isso aguab…para recordar que o belo não é outra coisa” (op. cit.,p.55).

fonético.⁶ Essa ética não seria a do desejo, mas a que se rege por um gozo, o da letra, embora em seu texto ele não se distinga propriamente do fônico. Desse modo, parece que, para ele, o procedimento de Joyce – e, por consequência o do analista/ analisante, já que Lacan o teria seguido numa psicanálise pós-joyceana – ofereceria um modo de gozo até então inédito para o neurótico, o gozo “do corpo da própria letra”⁷, que o liberaria do constrangimentos da estrutura.

            Disto o analista também serviria, já que, para Harari, a função de Joyce é a de uma alegoria, uma parábola⁸ para falar a respeito do analista e seu proceder. Não deveria nos surpreender então que – com esta afirmação que aparece no capítulo final, onde sequer estender a Realinguagem ao campo da análise e ao analista – tudo o que se resta para concluir é que se trata de uma alegoria, de uma iamgem para falar da operação analítica, não se podendo mais nesse momento fazer valer a dimensão da escrita e da letra no campo próprio da análise?

passar à/ a letra

            De Lituraterre destacarei aqui um elemento que acredito preparar o que virá depois como sinthome, propondo desse modo que a noção de sinthome “dependa” da noção de litoral.

            Observo que litoral poderia se inscrever numa série de outros termos na obra de Lacan: barreira (de contato, do bem, do belo), borda, litoral. Talvez também possamos incluir aí o termo intervalo, embora a sua referência seja temporal e não espacial, mas que nem por isso deixa de estar associado a esses elementos de limite/ transposição/ ligação/ separação. Dessa série, o primeiro, barreira contato,⁹ é o termo de Freud que Lacan retoma no Seminário 7: A Ética da psicanálise.  O que se inaugura assim, pela retomada desse termo Freudiano fundando a série, é uma referência fundamentalmente topológica: trata-se de uma categoria espacial não-intuitiva, impossível de

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  1.   “(…) cimenta com maior pertinência uma abordagem ética cuja apojadura faz, mais uma vez, à ordem da linguagem. Sim, mas não no registro do enunciado, mas no acontecer atinente ao fônico” (idem).
  2. (ibidem, p.57)
  3. “este (Lacan) recorre a Joyce para discorrer, de maneira alegórica, parabólica, acerca do psicanalista” (ibidem, p.58)
  4. No “Projeto para uma psicologia científica”.

ser representada por constituir um elemento que é ao mesmo tempo de separação e de contato. No seminário mencionado, as barreiras do bem e do belo inscrevem-se nesse modo ao marcarem, em toda aproximação em direção do desejo inconsciente, os pontos em que contato e impedimento se atualizam sob a forma de uma consistência que detém o sujeito.

Se de fato considerarmos esta série como operativa, como uma chave necessária ao campo da psicanálise, teremos que nos perguntar qual teria sido então a necessidade de Lacan de introduzir nela um novo termo? O que — em relação à série — o litoral traria de novo? O que litoral ligaria separando?

A diferença, a novidade, é a dimensão da letra nesse lugar.

Joyce, lido conjuntamente naquele momento com a experiência da arte da caligrafia japonesa, permite a Lacan pensar que entre dois territórios o litoral é a letra. Pensada assim, ela não seria a marca que delimita dois territórios, no sentido de uma fronteira onde se pode traçar uma linha divisória entre eles, espaço que se organizaria imaginariamente pelo dentro e fora.

Não é a letra… litoral, mais propriamente, ou seja, figurando que um cam­po inteiro serve de fronteira para o outro, por serem eles estrangeiros, a ponto de não serem recíprocos? A borda do furo no saber, não é isso que ela desenha? É como é que a psicanálise, se justamente o que a letra diz por sua boca “ao pé da letra” não lhe convém desconhecer, como poderia a psicanálise negar que ele existe, esse furo, posto que para preenchê-lo, ela recorre a invocar nele o gozo? (Lacan 1971 [2003, p.18])

A articulação letra/litoral é complexa porque exige ser pensada numa temporalidade própria a uma estrutura de linguagem.

Ser ela o instrumento apropriado à escrita [écriture] do discurso não a torna imprópria para designar a palavra tomada por outra, ou até por um outro, na frase, e portanto para simbolizar certos efeitos do significante, mas não impõe esses efeitos que ela seja primária.

Não se impõe o exame desse primarismo, que nem sequer deve ser suposto, mas do que da linguagem chama/convoca o litoral ao literal (ibidem., p.19, grifo meu)

Ao se referir ao que “da linguagem chama/convoca o litoral ao literal” Lacan indica aí uma passagem, uma virada. Essa dimensão é fundamental por fazer barreira a qualquer ideia de uma positividade da letra em psicanálise. Aliás, é preciso dizer que Lacan nunca se interessou propriamente pela letra “em-si”, nesse sentido que poderia se dizer alfabético ou mesmo fonético de modo mais estrito, ou seja, algo que tem sua existência anterior à sua própria operação. Parece-me que o que sempre interessou a Lacan é o que passa a letra, o que passa a escrita, numa espécie de irrupção, de salto próprio a uma estrutura.

A letra/litoral (concebida nessa série topológica) funciona, então, nessa passagem onde se escreve um limite até então insabido. Um exemplo disso são as criações translinguísticas de Joyce, como “lapsus langways” ou como “daysens”, diante das quais não podemos decidir se pertencem ao francês ou ao inglês. Se considerarmos o inglês e o francês como dois territórios ou duas consistências,¹⁰ podemos dizer que, através de “lapsus lanqways” e “daysens”, as duas línguas revelam-se portadoras de uma inconsistência. Nesse ponto, o inglês e o francês encontram-se ligados, nodulados por um ponto de falha.

Em Lituraterre os dois territórios, as duas consistências, que Lacan tem em mente são o gozo e o saber.

Entre centro e ausência, entre saber e gozo, há litoral que só vira literal quando, essa virada, vocês podem tomá-la, a mesma, a todo instante. É somente a partir daí que vocês podem tomar-se pelo que ela sustenta.
 (ibidem, p. 22)

Se saber e gozo podem ser ditos territórios por Lacan é na medida em que eles atualizam modos de incidência do campo do Outro, entendendo aqui como pano de fundo de toda esta elaboração, a dependência estrutural que o sujeito tem em relação a este campo. Ora, essa dependência tem um caráter inteiramente problemático porque o sujeito depende do campo do Outro para se significar, mas ele depende também, e muito essencialmente, daquilo que falta ao campo do Outro. A falta no campo do Outro é a condição para que esta alienação ao significante corresponda em Outro

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  1.   Este termo só apareceu em RSI certamente mereceria maiores esclarecimentos aqui, por ser uma referência que considero fundamental para nomear o que está em jogo nesse avanço de litoral ao sinthome. Para isso, entretanto, seria necessário entrar na teoria dos nós. Fica assim a indicação desse caminho.

lugar a uma separação, de modo a que o sujeito encontre a única resposta não-aniquiladora possível ao Desejo do Outro. Qual seja? Fazer-se desejante, sustentar um desejo através do objeto que ele “se” faz faltar ao Outro.

O problema é que é impossível saber a falta do Outro, já que é a própria condição do sujeito, pelo objeto que ele é no inconsciente, “resolve” esta falta. Não podendo escrever essa falta de modo definitivo, o sujeito está destinado a sofrer os efeitos próprios a esta dependência, sob a forma da inibição, do sintoma e da angústia.

Saber e gozo são duas consistências que só podem saturar o sujeito, obturá-lo. Entre gozo e saber, o sintoma se enterra então um ser de letra, que faz às vezes do ser (“tomar-se pelo que ela sustenta”). Um ser verdadeira­ mente intragável… pelo Outro, já que o Outro é impedido — pela natureza da estrutura de letra — de não sofrer a inscrição dessa marca em seu campo. É nesse sentido que, produzindo uma escrita que diferentemente do sintoma neurótico não faz apelo mas barreira, Joyce faz um obstáculo ao Outro na medida em que este não pode mais dizer o que ele é. A língua inglesa não pode — a partir de então — dizer dele e ele, mas ficará (esse era o seu desejo) para sempre fraturada por essa impossibilidade.

Isso tem toda a importância porque o fim da psicanálise está longe de ser a libertação da sobredeterminação, o desassujeitamento à estrutura. Não seria talvez o contrário, uma assunção ainda mais radical da dependência estrutural que o sujeito tem ao campo do Outro, na medida em que esta dependência não pode mais ser enganada¹¹ por nenhum objeto fantasmático? Nesse caso, o próprio sujeito pode querer assumir, por conta própria, a garantia da barra que pesa sobre Outro, já que ele verificou que é impossível “saber” essa barra a não ser pelo artifício da significação fálica.

ser intragável

            Antes de finalizar gostaria de esclarecer a condição do  sinthome como sendo da ordem do que passa à letra, através de dois exemplos, um do cinema e outro da clínica.

            Começando pelo cinema, recordo de uma cena do filme “O discurso do rei” (The King’s Speech) de Tom Hooper (2010). O filme baseia-se na

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  1.   “Não pode mais ser enganada” não significa o mesmo que superada, numa suposta travessia do fantasma.

história real do Rei George VI que, devido a uma gagueira que o impedia de “funcionar” no lugar do Rei, contrata os serviços de um terapeuta da fala, Lionel Logue, para um tratamento pouco convencional. Talvez o traço mais significativo deste tratamento seja que Logue justamente o trata como Rei. Eles acabam desenvolvendo uma relação bastante íntima e os sintomas de George se reduzem a ponto de ele poder, no momento necessário, quando a Inglaterra entra na Segunda Guerra Mundial, fazer seu pronunciamento à nação através de um discurso pelo rádio.

A cena a qual me refiro acontece logo após este discurso. Saindo da sala de transmissão, o Rei é parabenizado por Logue que lhe faz observar, entretanto, uma falha: ele havia gaguejado em um determinado ponto da fala. George, então, lhe responde: “Sim, mas se eu não tivesse gaguejado, eles não saberiam que era eu”. Em seguida, ele se reúne à esposa e se apresenta na varanda do palácio para a multidão, momento em que se verifica sua nova condição de poder ocupar o lugar real sem com isso ser anulado na sua particularidade sintomática.

O segundo exemplo é um fragmento da análise de uma mulher cujo sintoma foi inicialmente a compulsão a investigar, na vida de seu amante, todos os possíveis traços de uma traição. Interrogada sobre sua obsessão pela outra mulher, ela se lembra que aos 11 anos, fuçando as gavetas de sua mãe, encontrou o bilhete de um amante. Essa mãe, que ela considerava a mulher mais bela do mundo e que o observava fascinada enquanto se arrumava e se maquiava, sempre manifestou uma predileção absoluta pelos (filhos) homens, deixando-a ir viver com o pai quando finalmente se deu a separação. Quando chega à análise a paciente está no seu quarto casamento e tem um amante, condição que é a recorrente na sua vida amorosa.

A sessão que me interessa relatar aconte após quase uma década de análise, num momento em que ela está se separando ao mesmo tempo do quarto marido e do amante vivendo praticamente pela primeira vez na vida audalta a condição de estar “sozinha”, o que lhe desperta muita angústia. Neste dia, essa mulher de traços árabes e cabelos negros chega loira à sessão. Conta que tingiu os cabelos após conhecer a namorada jovem e bela de seu irmão, que é loira e cujo “brilho” (aos olhos do irmão eu diria) a fascina. Este cabelo, diz ela, “não tem nada a ver comigo, mas vou ficar com ele por um tempo”. Também comenta que algum tempo antes ela tinha feito isso mas em seguida, provavelmente, se sentiria “deprimida e feia”, correria ao cabeleireiro para voltar à sua própria cor, mas agora ela sente essa mudança como interessante e estranhamente apaziguadora “porque eu não tenho mais que ser isso”.

O que nos autoriza a acreditar na paciente quando ela nos diz que esta intervenção na imagem faz barreira ao que era efeito de um mandamento obsceno do supereu? Não podemos dizer que seu ato consiste em roubar da Outra o seu brilho, tornando-se culpada, desejante, e com isso podendo se separar do apoio identificatório que tinha ao irmão/ amante para se interrogar sobre seu ser de mulher?

Nesse ponto o que era do sintoma passa à letra, quando este traço — que é portado no corpo por ela (o cabelo loiro) inscreve — ao mesmo tempo — o modo particular de gozo que é o seu, determinado pelos significantes que a análise destacou, como também barra, para ela e para o Outro, o sacrifício que o mandamento lhe impunha, de ter que gozar da sua própria falta fálica, oferecendo-a em sacrifício para dar corpo a esta Outra, claramente associada à sua mãe.

Concluindo?

Os exemplos estão aí para interrogar qualquer posição positivada disto que, para Lacan, seria “o melhor que se pode esperar de uma análise em seu fim”. Do “gozo do corpo próprio da letra”,¹² não poderíamos dizer que ele não funciona como positividade mas como operação pela qual o sujeito se faz sustentar — por conta própria — a Barra no Outro, a impossibilidade da relação sexual?

Mas qual seria, então, “a vantagem”? O sintoma neurótico de certo modo já não fazia isso? Por que esse seria o “melhor” a se esperar?

A vantagem que os exemplos poderiam mostrar é que o (saber) fazer da letra liteiralixo, o que não serve para nada, ou melhor, o que não serve para nada no sentido de garantir a consistência do Outro… pode levar o sujeito a dispensar o apoio que o desejo sempre teve que encontrar na ameaça de castração.

“Não posso me experimentar no caminho do meu Desejo porque isso me custará a castração”: eis a desculpa neurótica por excelência. Como este sacrifício se tornará por sua vez o próprio meio de gozo (através do sofrimento neurótico), não há outra saída a não ser tornar o desejo impossível ou insatisfeito, conforme as diferentes posições na neurose.

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  1.  Nos termos de Harari.

            Não podendo se apoiar senão no Não-do-Pai, do pai imaginário castrador, o neurótico acaba por erotizar o mandamento que lhe proíbe o incesto, gozando masoquisticamente na própria falta para garantir a consistência do Outro. E assim, como diz Freud, a neurose acaba se revelando o pior negócio, mas o neurótico só percebe isso tarde demais.

            A diferença do sinthome/ liteiralixo em relação ao sintoma neurótico é que, gaguejando em seu discurso à nação ou fazendo-se a blonde implausível, o sujeito faz passar ao Outro o que se paga pelo acesso ao Desejo. Ele mesmo se priva do gozo que se impunha como o mais almejado e, o que é formidável, faz com que o Outro também pague seu preço, na medida em que este tem que consentir numa perda que se produz também do seu lado. É assim que acontece com Joyce, o intragável, que conforme seu voto, faz há décadas, os universitários trabalharem incansavelmente. Entretanto, e aqui se revela a irredutibilidade dos campos em questão, na experiência analítica isso não se faz pela via de uma obra inscrita na Cultura, mas num ato cujo destino é se perder tão logo seus efeitos se disseminem, relançando nesta mesma perda e experiência do desejo. Nem positivo, nem negativo, o valor desse passo é incalculável.

            Finalmente, se podemos dizer que Lacan encontra com Joyce uma via para uma resposta, resta saber: seria ela conclusiva? E que dispositivos de leitura seriam apropriados para uma relação entre a psicanálise e arte, onde os melhores resultados parecem ser os de produzir os limites insabidos entre esses territórios?

Referências bibliográficas

ANDRÉ, Serge (2010). LE symptôme et la création. Paris: Editions la Muette.

HARARI, R. (2008). “Psicanálise pós-joyceana, pontuações”, in: O psicanalista, o que é isso? Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

LACAN, J. (1971[2001]. “Lituraterre”, in: LACAN, J. (2001[2003]). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Filmes

HOOPER, Tom (2010). O discurso do rei (The king’s speech). Inglaterra.

6 comentários em “GIROS DA INTERPRETAÇÃO – O enigma na literatura e na psicanálise”

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