FACES DA ESCRITA – LINGUAGEM CLÍNICA ESCOLA

ESCREVER A CLÍNICA

Maria Teresa G. de Lemos¹

No discurso analítico de vocês, o sujeito do inconsciente, vocês

supõe que ele sabe ler. E não é outra coisa, essa história do

inconsciente, de vocês. Não só vocês supõem que ele sabe ler,

como supõem que ele pode aprender a ler.

Só que, o que vocês o ensinam a ler, não tem, então, absolutamente,

nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever a respeito. (Lacan 1985, p.52)

Primeiramente, é preciso dizer que o tema “escrever a clínica” convoca cada um a se incluir, pois diferentemente do termo “escrita”, o “escrever a clínica” não dá destaque ao produto final, à instância mesma do texto, mas sim há um tempo ou momento de produção, do qual é preciso fazer a suposição de um sujeito. É justamente nesse ponto que surgem série de dificuldades, pois não podemos deixar de nos perguntar: quem escreve a clínica?

            Sem encontrar nenhuma resposta, ocorreu-me que a impossibilidade de responder pudesse ser já uma resposta. É por isso que o trabalho que se segue constitui uma tentativa de dizer da impossibilidade de escrever a clínica e, principalmente, de cernir qual é a impossibilidade que está em jogo.

      ____________

1.  Escola de Psicanálise de Campinas

            Começarei introduzindo algumas referências imprescindíveis. Sabemos que não foi logo de início que Lacan traçou uma diferença radical entre a letra e o significante. No seminário sobre “ A Carta Roubada”, proferido em 1955, Lacan definiu a letra como “estrutura essencialmente localizada”, definida pelo lugar, pelos deslocamentos e pela insistência. Mesmo que, desse modo, ele não a diferenciasse radicalmente do significante, já se presentificava aí uma dimensão material (a carta/lettre propriamente dita) que se distingue da pura diferença do significante. É apenas na década seguinte, principalmente depois do Seminário 9, A Identificação (1961), que Lacan se dedica a um trabalho específico sobre a letra, primeiramente mostrando, a partir da história da escrita, a função latente desta na linguagem.

            Trata-se aí da operação da escrita, operação que separa a letra da representação. Em 1972, no “Seminário 20: Mais ainda”, Lacan dá um outro passo, com consequências clínicas e teóricas importantes, que é o de trabalhar a letra como efeito de discurso. É sobre este último desenvolvimento que vou me deter, principalmente, no  capítulo III, que se intitula a “ A função do escrito”.

            O eixo do capítulo está na afirmação da dependência que a letra tem em relação ao discurso, o que é repetido sob várias formas: “a letra é radicalmente efeito de discurso” (p.50) ou “não importa qual efeito de discurso ele é feito de letra” (p.51). Tudo gira, então, em torno de que a letra deve ser concebida como efeito de discurso, ou seja, de algo que já é um liame, já funciona como laço entre aqueles que falam. Não se trata mais de situar a letra como efeito da linguagem. Essa mudança pode parecer colocar em questão o axioma da anterioridade da linguagem, mas isto seria um engano, pois não se trata de substituição da linguagem pelo discurso, pois a “anterioridade” do discurso não seria lógica como a da linguagem, nesse caso, seria mais correto dizer que um “desde-já aí”: o discurso funciona “desde-já” no real, porque é a ação de um saber que funciona no real, campo de gozo que afeta continuamente o sujeito.

Sendo efeito de discurso, a letra não tem sempre a mesma função, tem diferentes funções dependendo do discurso no qual se encontra. Retomarei duas referências que são utilizadas por Lacan neste capítulo

para se referir à função do escrito: a filosofia, especificamente a ontologia (como Discurso do mestre) e a ciência (linguística e matemática).

            Diferentemente da episteme clássica, na qual o saber é produzido pela coerência de um discurso, a ciência moderna opera a partir de uma escrita pura, cujo paradigma é a lei, a fórmula. É a isso que a ciência visa: a função que se refere a letra na sua acepção de mais radical na medida em que está separada da representação. As letras numa lei científica, não se referem a nenhuma realidade material, visível e nem tem necessidade disso. A letra funciona aí na constituição de um saber e é a sua própria garantia.

            Pode-se perguntar então: a escrita da ciência é para ser lida? Ela serve para que se possam produzir proposições falseáveis, ou seja, proposições que se referem ao empírico, mas para isso elas não precisam ser submetidas a uma leitura.

            Lembremos, entretanto, que se a função do escrito é diferente a cada discurso, a sua operação é sempre a mesma: a barra. Seja na ciência, no documento da lei, na criança que aprende o bê-á-bá, a operação da escrita é sempre a operação da barra. A barra é o que Saussure “escreve” entre significante e significado, no seu famoso algoritmo que fundou a linguística como ciência e Lacan inverteu, colocando o significante sobre a barra (e o significado embaixo).

                                                           S

                                                    _______

                                                           s

            Como efeito da linguagem, a escrita sempre comporta a uma separação da representação, no movimento de um traço que vai tomar o lugar e marcar uma perda. O traço não se suporta de uma relação com a representação, a barra marcando a ausência de relação. É mesmo que nos mostra o algoritmo saussuriano, escrita que funda a linguística como ciência.

            Vale dizer que, embora essa escrita seja efeito e produto do discurso científico, o próprio discurso científico não lê a barra. Os linguistas não leem a barra no algoritmo de Saussure, ela está lá, mas justamente não é lida, não é considerada. A escrita do signo em Saussure é uma escrita

científica, que encontra sua possibilidade na barra, mas devido à própria ordem científica é a barra que está excluído dela. É Lacan quem lê a barra, mas a partir de qual discurso?

            O fato de que, na ciência, o saber que possa garantir nessa escrita pura, longe disso implicar uma dessubjetivação radical tem , ao contrário, o efeito de manter a crença num sujeito suposto saber. Esse saber que se escreve ele é concebido como já estando desde sempre já sabido, seja isto uma crença em Deus, no cérebro, na natureza. Não há destituição de um sujeito suposto saber, de uma suposição de que este saber já fosse em alguma instância sabido.

            O discurso filosófico, por sua vez, repousa sobre uma concepção de mundo (diferentemente do Marxismo e da Psicanálise, onde não há mundo, apenas discurso). Isso se chama ontologia, ontologia que isola o verbo ser, ela o produz como tal, como significante que comanda, imperativo, sendo que, como lembra Lacan, a cópula como tal não existe em todas as línguas, não é universal. O que nos permite perguntar se existiria ontologia nas línguas que não tem o verbo ser. O discurso do Mestre, entretanto, faz o universal. Lacan tenta exorcizar a ontologia subvertendo o uso da cópula, do verbo ser, dizendo que aquilo que se pronuncia é o que é poderia muito bem ser escrito éoqueé, numa única palavra. Isso nos dá uma dimensão da escrita como efeito, pois com essa ironia Lacan mostra que a filosofia “desconhece” a letra, este desconhecimento está ligado a uma concepção de mundo como objeto de conhecimento.

            Passemos ao discurso analítico. O discurso analítico é, segundo Lacan, esse novo modo de relação fundado apenas pelo que funciona como fala. Nele diz Lacan, se fala do ato sexual e se diz que a coisa não vai. Isso diz Lacan, que não é privilégio do discurso analítico, pois também o discurso corrente, o discorrente, também fala disso, e gira em torno disso: “disso que não vai e que, na medida em que não vai, vai assim mesmo”. O discurso corrente, diz Lacan, é aquele que fica no campo onde esses discursos todos se enlaçam e onde cada um desses discursos também é inteiramente capaz de enunciar que isto não vai, mas que por decência o faz o menos possível. A psicanálise tem uma relação bastante próxima com que esse discurso corrente, com esse blá-blá-blá, bavardage ou até

mesmo “babaquice” (como Lacan fala em “ O Ato analítico”). Entretanto, diferentemente do discurso corrente, na psicanálise isso produz consequência.

            Quero chamar atenção para a afirmação de que todos os discursos são capazes, ao seu modo, de enunciar este fracasso da relação sexual. Isso é importantíssimo, pois ele não apenas diz que a não-relação incide para todos os discursos, como também que não há liame entre os seres falantes que não funcione não tanto apesar desta não-relação, mas verdadeiramente com ela ou em torno dela.

Se não houvesse discurso análitico, vocês continuariam a falar como papagaios, a cantar o discorrente, a fazer girar o disco, esse disco que gira porque não há relação sexual – isto é uma fórmula que só se pode articular graças a toda constituição do discurso analítico e, que há muito tempo, lhes ladainha.

Mas por lhes ladainha, ainda tenho que explicá-lá: ela só tem suporte no que a relação sexual não pode se escrever. Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual. É daí que há um certo efeito do discurso que se chama a escrita.

(Lacan 1985, p. 49)

            Como entender isso? Se a condição da escrita é que ela se sustente por um discurso, o fato é que a relação sexual, caso se quisesse escrevê-la como “XRY” – sendo X, a mulher; sendo R, a relação e sendo Y, o homem -, isto não se sustentaria por nenhum discurso, por nenhum tipo de laço entre os falantes. A relação sexual só encontrando o falo para regular o gozo, não havendo senão a castração (a barra), para escrever um único gozo. Escrever assim seria, então, uma besteria porque o homem e a mulher são apenas significantes ligado ao uso discorrente da linguagem – e a mulher só entra, em função na relação sexual como mãe.

De sorte que foi a partir do momento que um discurso, o discurso analítico, abordou essa questão da escrita e colocou que a questão da escrita é que ele se sustente por um discurso, que tudo escapa e que, a relação sexual, vocês não poderão jamais escrevê-la – escrevê-la como

um verdadeiro escrito, enquanto aquele que, da linguagem, se condiciona por um discurso. (Lacan 1985, p.50)

            Voltarei agora à citação que coloquei como epígrafe, para tentar responder à questão colocada no início: quem escreve a clínica?

No discurso análitico de vocês, o sujeito do inconsciente, vocês supõe que ele sabe ler. E não é outra coisa, essa história do inconsciente, de vocês. Não só vocês supõem que ele sabe ler, como supõem que ele pode aprender a ler.

Só que, o que vocês o ensinam a ler, não tem, então, absolutamente nada a ver, em caso algum, com o que vocês possam escrever a respeito. (Lacan 1985, p.52)

            O trecho faz parte do “Seminário Livro 20: Mais ainda”, no qual Lacan fala da ausência de relação entre a dimensão do que se lê, do que se há de leitura no inconsciente e aquilo que “vocês” podem escrever a respeito. Sublinho “vocês” porque marca, em primeiro lugar, que ele se endereça aos analistas e, em segundo lugar, que ele não se inclui naquele momento entre os analistas. Há uma disparidade nessas posições; não é enquanto analista que ele constata, que ele enuncia esse “nada a ver”, entre aquilo que se lê (leitura que é do inconsciente, mas onde certamente o analista tem sua parte, já que faz parte do inconsciente) e “o quê” se pode escrever disso. Um analista não poderia enunciar essa disparidade sem cair de seu discurso, sem que ele se apresentasse como mestre, já que esta impossibilidade determina o analista

            Ora, a denúncia da impossibilidade de relação não é própria do discurso analítico, mas sim do discurso da histeria. Não é do discurso analítico, mas de sua chamada “linguisteria” que Lacan “leu” a barra e por sua vez a escreveu em várias de suas letras. O discurso analítico não enuncia a falta de relação, porque no lugar da falta de relação, no lugar da barra, o discurso analítico coloca o objeto a como agente. No lugar da falta de relação, a psicanálise propõe justamente um laço a dois (como disse Lacan), no qual a presença do analista ou o seu silêncio) atualiza o objeto. Assim, poderíamos dizer que a impossibilidade de escrever a clínica

chama-se transferência. Mas seria mais preciso dizer que o analista não pode escrever porque justamente ele é a causa da leitura.

            Finalmente, gostaria de indicar que essas distinções são importantes nesse momento em que se fala da transmissão da clínica, já que o impossível em jogo, nessa transmissão, tem sido muitas vezes tomado como uma espécie de proibição relativa à escrita de casos, o que mereceria ser questionado, já que existem diferentes posições discursivas em jogo.

Referências bibliográficas

LACAN, J. (1998). “O seminário sobre a carta roubada”, in: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

________. (1985). O Seminário – Livro 20 – Mais, ainda. Trad. M. D. Magno.

            2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Lemos, M. T. G.(1998). “Ler é uma barra.” Literal n°. 0 – A leitura na formação do psicanalista. Campinas: Revista da Escola de Psicanálise de Campinas.

3 comentários em “FACES DA ESCRITA – LINGUAGEM CLÍNICA ESCOLA”

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