ANAIS DA JORNADA – O QUE O PSICANALISTA TEM A DIZER SOBRE AS PSICOSES_ – 07 E 08 DE OUTUBRO 2

Retorno ao imaginário

Maria Teresa Guimarães de Lemos

Escola de Psicanálise de Campinas

O título original deste trabalho era “o que as psicoses ensinaram a Lacan sobre o imaginário?”. Preferi modificá-lo em parte porque o trabalho está longe de responder a esta questão, mas mais ainda porque o resultado desse esforço de elaborar algo dessa relação levou a um desejo de fazer um novo retorno ao imaginário. Um tipo de retorno que acontece quando descobrimos uma nova chave, um novo lugar de onde se dirigir e aí toda a experiência analítica parece surgir sob uma nova luz. Esse momento tem uma relação intrínseca com pelo menos três lugares: o grupo de trabalho do passe da Escola de Campinas, o grupo de trabalho sobre as psicoses coordenado pelo Mauro Mendes Dias e o seminário de Domingos Infante, sobre o “Seminário 23: O sinthoma”.

O interesse deste trabalho é dar início a uma retomada da função do imaginário a partir da introdução do nó borromeano. O ponto de partida desse interesse tem relação com questões da clínica, particularmente com uma ideia que me ocorreu várias vezes em sessões analíticas e supervisões. Essa ideia poderia ser formulada assim: “quanto mais avançamos na direção do real, ou seja, de um ponto de gozo na economia do sujeito, mais importante se revela o imaginário”. Essa foi a ideia que veio assim de um modo bruto e o trabalho a seguir é uma tentativa de esclarecer e elaborar esta ideia.

A asserção relativa à importância do imaginário surge de maneiras muito distintas entre si e até mesmo opostas. Surge, por exemplo, quando notamos que no momento em que um sintoma importante, que organiza de modo tão extenso a vida de um sujeito, começa a vacilar e perder gozo e o paciente, que sempre se mostrara tão “elaborativo”, tão “produtivo” em seu trabalho analisante, subitamente dedica-se exclusivamente

a acusar seu analista, dizendo que é ele que quer sua queda, seu mal, que subestima seu sofrimento etc. Isso que aparece como reação terapêutica negativa se revela aqui sob a forma de uma intromissão maciça do eixo a–a’, que, nesse momento, vem iluminar a função de obstáculo que o imaginário especular tem em relação ao eixo sujeito/Outro, não sem deixar entrever que é muito mais o seu ser que o sujeito defende do que propriamente sua imagem.

Uma situação bem distinta, e que me interessa mais nesse momento, é quando o sujeito, tal como Hamlet – se apoia numa identificação imaginária “circunstancial” ou pontual para produzir um acesso inédito ao Desejo. Penso numa paciente que um dia chega loira à sua sessão, contando que tingiu os cabelos depois de conhecer a namorada jovem e bela de seu irmão, que é loira e cujo “brilho” (aos olhos do irmão, registro para mim mesma) a fascina. Este cabelo, ela diz, “não tem nada a ver comigo, mas vou ficar com ele por um tempo”. Também comenta que há algum tempo atrás ter feito isso a teria incomodado e que provavelmente teria ido ao cabeleireiro no dia seguinte para voltar à sua própria cor, mas agora ela o sente como interessante e estranhamente desejante, dizendo “eu não tenho mais que ser isso”. É um momento da análise onde ela está em vias de se separar de um homem em relação ao qual sua fidelidade duvidava obsessivamente, imaginando sempre a cena onde ela, humilhada, via-se traída por ele com uma “mais bela e jovem que ela”. Diferentemente de Hamlet, cujo ato, pela própria estrutura em questão, “resolve” sua divisão no mesmo momento em que a inaugura, nesse caso o sujeito vai experimentar uma espécie de sentimento de despersonalização, ou mesmo de uma angústia que acompanha essa passagem, ainda que a reconheça como algo de fundamental, que ele mesmo escolhe.

O que nos autoriza a acreditar na paciente quando ela nos diz que esta intervenção na sua imagem, no seu corpo próprio, faz barreira ao que era efeito de um mandamento obsceno do supereu? Este lhe impunha na cena fantasmática gozar da sua própria castração, da sua própria falta fálica, oferecendo-a em sacrifício para dar corpo a esta Outra, que claramente está associada a sua mãe. Não podemos afirmar que seu ato consiste em roubar da outra o seu brilho, tornando-se então

culpada, desejante, e com isto podendo se separar do apoio identificatório que tinha ao irmão/amante/homem para interrogar seu ser de mulher?

Como poderia essa passagem se dar sem o imaginário, isto é, sem saber-fazer com o imaginário? Quero destacar que este termo saber-fazer já é um termo das teorias dos nós. Saber fazer com o imaginário ou saber fazer não sem o imaginário são os termos que me ocorrem aqui.

Esses elementos trazem questões importantes para o lugar do analista; que nesse momento é sua posição que será determinante, pois é um momento em que o sujeito se encontra em plena vacilação. Não está em questão aqui um momento de passe, de passagem, em que a posição do Outro é decisiva?

Por sua intervenção o analista pode tanto reenviar o sujeito à imagem materna (mostrando que este “brilho” tem a ver com a rivalidade com sua mãe) e aí fazer pender a báscula para o lado do imaginário/obstáculo ou consentir ele mesmo em transferir ao acontecimento/acting o saber suposto, de modo a não impedir que o sujeito vá cotejar o seu fantasma com o real de um encontro qualquer, não sem esta nova colagem de si mesmo. Mauro Mendes Dias em sua apresentação falou da colagem do psicótico, aqui é também colagem, mas a diferença importante é que é recorte/extração e colagem.

De um lado barreira, de outro acesso, estamos falando mesmo do imaginário, ou do mesmo imaginário? Não estamos ainda habituados a pensar a análise como uma redução do imaginário pelo simbólico? Não estamos ainda habituados a pensar o imaginário como um registro menor, mesmo sabendo que é nada menos que a dimensão do corpo próprio que está ali em operação?

Meu argumento é que este “retorno ao imaginário” pelo nó borromeano permitiria esclarecer um ponto relativo ao desejo inédito que Lacan coloca como advindo no final de uma análise e que implica numa outra relação com o narcisismo, com o corpo, com o amor e com o sentido (considerando que todo sentido é fálico).

Há certamente uma relação muito importante, em Lacan, entre a função do imaginário e a psicose. Se, diferentemente do real, que Lacan afirma ter inventado, Lacan não inventou o imaginário mas o leu em Freud, principalmente nos textos da segunda tópica, o fato é que

ele não o fez sem o seu interesse particular pela psicose, em especial pela paranoia. Há uma relação entre a elaboração do imaginário do estádio do espelho e o conhecimento paranóico pela análise do caso Aimée, assim como há também uma relação entre a concepção que lhe interessa aqui do imaginário, da consistência pelos nós, e a leitura que Lacan faz de Joyce no seminário 23. A psicose seria, então, a estrutura que permite a Lacan a extração do imaginário.

Na história da obra de Lacan há uma relação evidente entre a nomeação dessa categoria e a psicose, mas não se trata de uma relação apenas histórica. Podemos pensar que psicose e imaginário são cartas/ lettres de passe para Lacan, ou seja, elementos pelos quais ele é, desde  seu encontro com a psicanálise, como psiquiatra, levado a produzir um certo modo de insistência, onde se inscreve algo do desejo do analista.

Nessa reflexão foi muito interessante retornar ao livro de Philippe Julien, “O retorno a Freud de Jacques Lacan: a aplicação ao espelho”, onde encontrei elementos para situar a ideia do trabalho. Quero retomar aqui o modo como ele situa os 3 tempos do imaginário na obra de Lacan:

O primeiro momento, que ele chama de imaginário puro, vai até 1953, quando Lacan inventa, no dia 8 de julho, suas três denominações: real, simbólico e imaginário. Nesse dia, Lacan chamará de imaginário o que ele leu durante 20 anos em Freud: a ligação do eu ao narcisis­mo. O estudo da paranóia leva-o a falar em “doença do narcisismo” e, abandonando radicalmente a ideia de um eu-percepção-consciência, o coloca inteiramente do lado do narcisismo.

Em 1936 Lacan inventa o estádio do espelho, que liga o eu à ima­gem do semelhante como constituinte da imagem do corpo próprio, e a partir de 1946 faz uma releitura da sua própria tese generalizando: “o eu tem estrutura paranóica”.

O segundo momento é o do “imaginário impuro, sob a primazia do simbólico”. A partir de 1953, Lacan duplica a alienação do sujeito: não só a imagem é do Outro, mas o próprio inconsciente é o Discurso do Outro e agora é o simbólico que determina o imaginário, tornando-o ligado. O esquema ótico vai mostrar essa determinação: Lacan introduz o simbólico no imaginário através do Ideal do Eu. Algo de fundamental ocorre então nos seminários 9, 10 e 11: o desenvolvimento do imaginário

que contém um furo, menos phi, o falo imaginário enquanto falante na imagem — e dando suporte a ela pela possibilidade de integrar — por essa falta — o narcisismo primário do sujeito, em reserva, do outro lado do espelho. Através dessa falta o objeto a se mostra operativo, no fantasma, entrando até na resposta que o sujeito dá ao Desejo do Outro enquanto opaco e impossível.

O terceiro momento é o imaginário do nó, no qual o imaginário não se define mais como desconhecimento mas como consistência. A consistência é o que mantém junto e nesse sentido o próprio nó é uma intervenção no imaginário.

Cito um trecho do “Seminário 23: o sinthoma”:

“Os três círculos do nó borromeano são, como círculos, todos três equi-
 valentes
, constituídos de alguma coisa que se repete nos três, isso não
 pode deixar de ser considerado.

Entretanto, não é por acaso, mas como resultado de uma concentração,
que seja no imaginário que eu coloque a consistência assim como faço
do furo o essencial no que diz respeito ao simbólico e ao real sustentando o que chamo de ex-sistência.

O fato de que os dois estejam livres um do outro — trata-se da própria
 definição do nó borromeano —, que sustento a ex-sistência do terceiro
 e especialmente em direção a algo da ordem da limitação. A partir dos
 momentos em que ele está borromeanamente anudado aos outros dois,
 estes lhe resistem. Isto quer dizer, que o real só tem ex-sistência ao
 simbólico, pelo simbólico e pelo imaginário, os outros dois.

Claro que não é um mero acaso eu formular isso dessa forma, mas é
 espantoso, uma vez que convém dizer a mesma coisa para os outros dois. É igualmente na medida em que ex-siste ao real que o imaginário encontra o que lhe detém e que, nesse caso, é perceptível.” (op. cit.,
grifo meu, p.49).

Desses elementos, pelos quais se pode dar início a uma retomada
 do imaginário, destaquei acima a equivalência dos registros simbólico,
 imaginário e real. Ela é fundamental como chave, pois ao mesmo
 tempo em que afirma a radical heterogeneidade entre eles também os
 nivela na operatividade do enodamento, não permitindo mais a redução

do imaginário a um mero efeito do simbólico. Disso se destaca uma
 estrutura não apenas a ser lida como cadeia, mas a ser manejável de
 dentro, de dentro dos efeitos de consistência, ex-sistência e furo pelos
 quais a causa sexual do sujeito vem operar.

Para voltar à questão que coloquei no início, quanto a se podermos
 falar de momento de passe, ou de passagem, quando o sujeito faz uma intervenção sobre/com o imaginário como acesso a uma outra posição no desejo, trago aqui um outro elemento clínico. Trata-se de um paciente que tem um percurso bastante longo de análise. Atualmente eu resumiria  a questão transferencial/contratransferencial nos seguintes termos: eu acho que ele nunca esteve tão bem e ele acha que nunca esteve tão mal! Dizer que ele “nunca esteve tão bem” não significa nesse caso a felicidade ou ausência de sofrimento, mas sim o de que ele me diz coisas que nunca tinham sido escutadas antes, há uma autorização no Dizer que ele mesmo reconhece e se surpreende. Entretanto, queixava-se de um total esvaziamento das relações, das coisas que o animavam, mesmo realizando movimentos que antes seriam impensáveis. Este vazio lhe pesa, sente-se deprimido e tem medo de nunca mais sentir gosto pela vida.

A análise prossegue com poucas intervenções, intervenções que apenas reafirmam esta estranha duplicidade da sua condição atual. Num determinado momento há algo de interessante que se introduz de maneira quase insignificante nas suas associações: revela que há apenas uma pequena coisa que o anima, comprou um mp3 e começou a baixar músicas. Isso tem tomado um tanto do seu tempo. São músicas da adolescência, muitas das quais havia se esquecido completamente. Ele interpreta isso como uma satisfação masturbatória, solitária. Em uma sessão conta, também de passagem, que começou a gostar do seguinte “exercício”: começa a escutar a música e quando ela quase chega ao clímax a interrompe, não espera ela terminar e já passa para a seguinte. Nessa passagem ele experimenta a surpresa mais que o prazer de constatar que a “isso” continua, a animação continua, apesar do corte.

Penso que há algo de muito importante em seu “exercício”. Primeiramente o fato de que ele se impõe esse corte. Ele se priva daquilo que justamente para ele continha a promessa do cumprimento da satisfação. Não se trata para ele de reter esse clímax, mas de experimentar o não

fechamento de algo. Vale dizer também que ele havia contado que isso havia significado para ele, na adolescência, a abertura para o mundo, a saída de sua referência familiar. Também havia revelado que essas músicas na época eram sempre acompanhadas de uma imagem: ele se via como o guitarrista ou o cantor e se exibia para uma mulher que lhe interessava. Para ele havia entretanto algo de incômodo nesses devaneios, que acabou fazendo com que fossem abandonados depois:não conseguia passar da cena de exibição para a da conquista da mulher, como se ficasse retido na primeira cena.

Ocorre-me então que este corte que ele se impõe corresponde a uma extração do objeto olhar e que funciona como causa na medida em que se separa, abre um intervalo entre o i(a) e o a. Algo se anuncia de importante em relação à sua posição no desejo e em relação com o modo pelo qual com este saber-fazer ele se subtrai ao lugar de falo imaginário da mãe. Para onde isto o levará, não é possível dizer ainda, mas se quisermos falar em acesso a um desejo inédito fica claro que há aí não se trata de um desejo propriamente novo, pois destaca-se que há justamente uma estrutura de repetição como necessária, mas o que é inédito é justamente o corte. Esse momento também convoca o analista a um modo singular, pois há uma manobra pela qual o analisando tenta convencê-lo da natureza meramente regressiva, masturbatória, dessa “repetição” justamente no momento em que começa a despontar algo de uma saída não mais pela recuperação mas pela própria perda que ele agora consente e assume como tal.

E a posição do analista nesse momento não vai depender da maneira como este pôde responder neste ponto de onde a estrutura impõe uma imaginarização do furo?

Referências bibliográficas

Julien, Philippe (1993). O retorno a Freud de Jacques Lacan: uma aplicação ao espelho. Porto Alegre: Editora Artes Médicas.


Lacan, Jacques (2007). Seminário 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

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