Ler é uma Barra
Maria Teresa Guimarães de Lemos
Sobre a questão da leitura, gostaria de voltar aqui a uma questão que foi apresentada numa jornada anterior. Naquele trabalho, que tratava de um fragmento clínico, a referência teórica principal era um capítulo do Seminário 20 de Lacan, chamado “A função do escrito”. Destaquei do caso clínico o momento de uma interpretação, em que um significante se decompunha, levando a uma outra cadeia de significantes. A análise do fragmento levava a uma distinção entre a letra e o significante na psicanálise e na linguística.
A letra tomada na sua dimensão fonemática é, na linguística, um elemento diferencial, de oposição, assim como o significante. Na psicanálise, entretanto, existe uma distinção: o significante é um elemento de natureza diferencial, negativa, enquanto a letra não se define senão em termos simbólicos, ela é também real e, por isso, tem uma incidência diferente da que tem na linguística. A partir daí, colocava a pergunta: se o significante representa o sujeito para outro significante, então, o que dizer da dimensão da letra, o que ela implica do sujeito em questão?
Recentemente, por ocasião de uma releitura do capítulo mencionado acima, em função do curso de especialização que a Escola promove junto com o Departamento de Filosofia da Unimep, essa mesma questão retornou. O que chamou atenção nessa releitura foi a “função”, elemento que está no título. Lacan afirma que a letra é um efeito do discurso e que a função do escrito não é a mesma dependendo do discurso em que se dá, pois ela é determinada pelo discurso. Mas como entender isso? A função do escrito não seria – antes de mais nada – a de ser lido? Suposição de uma relação da escrita com a leitura na “essência mesma da coisa”, da coisa escrita. A partir daí pareceu-me que isso era colocado em questão.
E, de fato, são vários os casos que confirmam a pertinência desse questionamento. No Direito, por exemplo, é evidente que a escrita tem uma função e está longe de a de leitura. Nele existe uma escrita cuja função não é a de ser lida, mas de ser assinada, visando fixar um compromisso, comprometer a palavra dada. O escrito não serve para ser lido: nem sempre lemos os documentos que assinamos.
Outro caso, comentado por Lacan, é o discurso da ciência. Mas isso não a título de exemplo, e sim, como uma referência fundamental para situar a função da escrita. Diferentemente da episteme clássica, na qual o saber é atingível pela coerência de um discurso, a ciência moderna opera
a partir de uma escrita pura, cujo paradigma é a lei, a fórmula, a função. É isso que a ciência visa: função que refere a letra na sua acepção mais radical, na medida em que está separada da representação. As letras numa lei científica não se referem a nenhuma realidade material, visível e nem têm necessidade disso. Aí letra funciona, mas em que sentido? Na constituição de um saber.
Pode-se perguntar, então: a escrita da ciência é para ser lida? Ela serve para que se possam produzir proposições falseáveis, ou seja, proposições que se referem ao empírico, mas não precisam, para isso, ser submetidas a uma leitura. Elas são articuladas a outras escritas e com isso se produz um saber.
Até aí, então, não se constata a escrita ligada necessariamente à leitura. É na psicanálise que Lacan vai situar a dimensão da leitura. No entanto, isso não vai implicar numa relação entre leitura e escrita, mas numa articulação, entre a função do escrito e a sua operação, que é a barra.
Lacan afirma que a função do escrito é diferente a cada discurso, mas no que se refere à operação da escrita ele afirma que ela não difere, é sempre a mesma. Seja na ciência, no documento, na criança que aprende a escrever, a operação da escrita é sempre a operação da barra.
“A barra é a mesma coisa. A barra é precisamente o ponto onde, em qualquer uso da língua, se dá a oportunidade de que se produza o escrito. Se em Saussure mesmo S está aí, e ele insiste sobre a barra, é porque nada, dos efeitos do inconsciente, têm suporte senão graças a essa barra – foi o que lhes pude demonstrar em Instância da Letra, que faz parte dos meus Escritos, de maneira que se escreve, nada mais”.
(Seminário 20, p. 48).
Então, como efeito da linguagem, a escrita sempre comporta uma separação (do nível de representação), no movimento de um traço que vai tomar o lugar e marcar uma perda. O traço não se suporta de uma relação com a significação, a barra marca a ausência de relação. Assim, se essa operação é efeito de discurso, no entanto, é só a partir do discurso analítico que se pode falar da barra, ou melhor, que se pode ler a barra. E foi mesmo Lacan quem leu a barra em Saussure, o que nunca pôde ser lido por nenhum linguista. […] Pois a escrita do signo em Saussure é uma escrita científica, que encontra sua possibilidade na barra, mas devido à própria ordem científica (que comporta um sujeito abolido) é a barra o que está excluído nela. A barra é a operação necessária da ciência, mas
ela é estranha à ciência, pois é o impossível da relação sexual que causa o sujeito nessa relação com o saber.
“Se não houvesse discurso analítico, vocês continuariam a falar como papagaios, a cantar o disc-curso-corrente, a fazer girar o que gira, esse disco que gira porque não há relação sexual – isto é, uma fórmula, que só se pode articular graças a toda a construção do discurso analítico, e que há muito tempo eu lhes ladainho.
Mas, por lhes ladainhar, ainda tenho que explicá-la – ela só tem suporte na escrita, no que a relação sexual não se pode escrever.
Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual. É daí que há um certo efeito de discurso que se chama a escrita”.
(Sem. 20, p. 49)
Então, caso se suponha uma relação entre escrita e leitura na essência mesma da coisa, sendo a função algo secundário em relação a essa “essência mesma”, a psicanálise vem revelar que a escrita põe em questão a “essência mesma da coisa”, que essa, não existe como essência, nem como “mesma” porque a coisa sexual não se realiza como relação, e disso o inconsciente se suporta. A leitura é, então, própria da psicanálise, não porque a psicanálise realize a relação entre escrito e leitura, que estava suposta, mas porque é o que não se escreve que causa a leitura, o inconsciente como o que se lê. A função do escrito na psicanálise não é assim a de representar, mas a de causar a leitura. Nesse sentido, existe uma relação entre sujeito e leitura, pois ambos são causados pela/na materialidade da ordem simbólica. Essa relação interessa à questão da leitura na formação analítica e no espaço da instituição, à qual interessa dar continuidade a partir